HGV E NOVAFAPI: UM DESRESPEITO AO CIDADÃO!
Sexta-feira, 24 de agosto de 2007, HGV: Era dia de prática de Gastro no ambulatório. Um grupo de alunos do 6º período da FACIME/UESPI depara-se com uma placa: bem-vindos ao ambulatório da NOVAFAPI. A diretora do ambulatório passa no exato momento em que os alunos teciam comentários sobre a tal placa. Dirige-se a eles e de modo bem irônico pergunta:- vcs estão perdidos? Os alunos apenas perguntam sobre aquilo que ali estava afixado e a senhora então afirmou que a NOVAFAPI estaria presente de agora em diante naquele espaço. O motivo: eles pagam e a gente não. Os alunos argumentaram e a diretora apenas fugia das perguntas se utilizando de ironias.Esse é apenas um resumo de um fato acontecido na semana passada e que deflagrou uma grande polêmica: a utilização por alunos de uma faculdade privada das instalações de um hospital público estadual. Mas o que realmente está por trás de tudo isso?
Não é novidade pra ninguém que as faculdades particulares de Teresina foram abertas sem nenhum estudo prévio. Não foi feito nenhum levantamento da rede hospitalar da cidade, dos indicadores epidemiológicos e demográficos, conseqüentemente não se determinou a viabilidade da abertura de novos cursos na capital piauiense.
Pra se ter uma idéia, hoje existem no Brasil 166 cursos de Medicina. O estado de São Paulo possui a maior parte: trinta e um, com mais de 3000 vagas anuais. O que resulta numa relação de 8,2 vagas para cada 1000 habitantes. O estado de Goiás por exemplo, possui uma relação de 3,7 vagas para cada 1000 habitantes. E o Piauí possui 4 cursos,o que resulta numa relação impressionante de 12,3vagas/1000hab.
As entidades médicas de todo o Brasil são contrárias à abertura indiscriminada de cursos de Medicina. No entanto, pela falta de uma legislação consistente, na prática, o MEC é que determina isso ao seu “bem entender”. Justamente pela falta de critérios e de rigor na abertura desses cursos, boa parte inicia suas atividades sem uma estrutura pré-formada (lê-se hospital) e à medida que surge a necessidade de atividades práticas, essas instituições utilizam-se da rede pública de saúde.
Do ponto de vista econômico, é muito mais lucrativo para essas faculdades. Afinal, muitos empresários da educação vêem a Medicina como uma oportunidade de investimento rentável e a construção de um hospital certamente fere essa lógica mercantilista, que visa unicamente ao lucro. Entretanto, ferida maior é criada na saúde pública e a sociedade, em última análise, é a maior prejudicada com isso tudo.
Especificamente em relação ao HGV, devido a uma estrutura física e funcional incapaz de comportar esses alunos, toda a qualidade de ensino estará prejudicada, tanto da UESPI, UFPI e particulares. Vale ressaltar que a nossa luta é pela Saúde Pública do Estado e que o nosso interesse é uma formação de qualidade para todos, sejam acadêmicos das faculdades públicas ou privadas. Afinal, todos seremos construtores dessa Saúde e o objetivo maior é, senão, o serviço à sociedade exercido com competência, interesse e respeito à dignidade do próximo.
Toda a polêmica em questão gira em torno de um convênio firmado entre HGV e NOVAFAPI, em que o hospital cede 10 salas do ambulatório pelo período de 1 ano, podendo ser prorrogado. Em razão disso, gerou-se um grande sentimento de indignação, pois a própria FACIME já havia solicitado por diversas vezes novas salas no ambulatório e alegou-se a indisponibilidade destas. De repente, aparecem dez. E pra NOVAFAPI.
As instituições públicas devem ter prioridade, afinal são elas que conferem ao HGV o status de hospital-escola, além de um repasse mensal de quase 300 mil reais. A NOVAFAPI está pagando 5 mil ( pro hospital, na calada da noite não sei o que que acontece). Mas a questão não é dinheiro. A própria assinatura do convênio é arbitrária. Toda decisão do hospital deveria passar pelo crivo de um Conselho Gestor formado por professores e estudantes, em cumprimento ao artigo 6º, inciso XVI da portaria 1000 do MEC de 15 de abril de 2004. Esse Conselho não existe no HGV.
É bom lembrar que a manifestação é institucional, ou seja, todo o descontentamento se dá em relação ao convênio firmado entre NOVAFAPI e HGV e nada tem a ver com os estudantes da instituição. Acredito, inclusive, que muitos têm a consciência do seu direito a um hospital-escola próprio e com todas as condições necessárias a uma boa formação. Pelo valor da mensalidade, isso é o mínimo que poderiam fazer.
É importante alertar sobre isso aqueles que ainda levam para o lado pessoal e que, na verdade, funcionam como massa de manobra, ao passo que, focam a atenção numa rivalidade que não existe e esquecem do seu direito enquanto estudante. O que certamente é o desejo mais profundo da administração da faculdade.
Enquanto estudantes, todos devemos lutar por nossos direitos e tenho a certeza de que os alunos das particulares também vão mostrar a sua cara e dizer não a essas posturas mercenárias e pouco sensíveis aos problemas do povo. Todos devemos estar juntos nesse momento. A UESPI e UFPI já estão caminhando lado a lado. As entidades médicas do estado estão do nosso lado. A população tomará conhecimento do que está havendo e, certamente, também estará do nosso lado.
Não se pode admitir que interesses individuais ainda se sobreponham e esmaguem o interesse coletivo. Ainda mais numa questão delicada como saúde, que representa um direito constitucional de todo cidadão. Leis a parte, falta o principal: o sentimento de solidariedade, de amor ao próximo e, principalmente, de amor ao Piauí. Não vamos deixar que prevaleça a força daqueles que querem perpetuar a pobreza e o atraso no nosso Estado.
Trata-se de um momento ímpar do movimento estudantil do Piauí. A nossa luta está apenas começando e temos a fé e esperança de que bons frutos serão colhidos. A nossa voz representa, acima de tudo, aqueles que são os mais prejudicados com essa situação e por quem devemos lutar sempre: o povo. Afinal, a razão da Medicina, enquanto atividade social, é a capacidade de responder ao sofrimento humano. E isso deve ser levado em conta sempre!!
Eduardo de Carvalho Borges